Antes de mais nada, é importante esclarecer que a Academia do Autismo é uma instituição privada e apartidária, mas atenta para às políticas públicas para a população autista. Dessa forma, o presente artigo não visa apoiar candidato A ou B e sim auxiliar profissionais e familiares a fazer uma escolha mais consciente na eleição que se aproxima.

E dois fatores merecem destaque e fazem com que nós tenhamos uma atenção ainda maior nesta eleição:

Primeiramente, cabe dizer que, com a nova legislação sobre campanhas eleitorais e uma maior fiscalização/punição contra irregularidades, esta campanha promete ser a mais barata dos últimos anos. E com pouca verba, os marqueteiros já encontraram o caminho para alcançar os eleitores: as redes sociais e, com isso, eles estão em busca de formadores de opinião (youtubers, blogueiros, personalidades, renomados profissionais) para influenciar os seguidores (cabos eleitorais virtuais).

Outro importante fator é que, definitivamente, o tema “autismo” está em voga no país. O tema deficiência é inclusive citado como um “bom nicho” de trabalho por revistas políticas e de empreendedorismo. E dentro das deficiências, o autismo é a que mais chama a atenção atualmente pela complexidade e pela carência generalizada com que se encontram as políticas públicas.

Vamos às dicas então:

1 – Não se preocupe só com o autismo.

Somos cidadãos e a saúde, a segurança e a educação também nos impactam diretamente. Você precisa ter clara qual é a sua posição política e o caminho que espera que o Brasil siga. Objetiva instituições públicas menores, que cobrem pouco imposto e apenas regulem e supervisionem a sociedade, ou prefere um Estado mais forte, capaz de garantir alimentação, saúde, segurança a população, mesmo com alta carga tributária? Quanto às leis, você precisa de alguém que defenda a a redução da maioridade penal ou quer apoiar um defensor da legalização da maconha para fins medicinais? Com sua posição política em mente, procure os candidatos que melhor representem as suas ideias.

2 – Conheça o partido.

Lembre-se que, para deputado federal e estadual, seu voto é contado primeiro para o partido e depois para o candidato (voto proporcional). Portanto, preocupe-se com o partido que o candidato representa e veja se o partido defende aquilo que você concorda. Os candidatos escolhem uma sigla para se afiliar, à partir da concepção política que acreditam e, depois de eleito, por muitas vezes precisam votar em projetos de acordo com a orientação do partido, caso contrário podem ser inclusive punidos.

3 – Saiba se posicionar sobre as necessidades das pessoas com Transtorno do Espectro Autista.

Mesmo dentro dessa causa, observa-se um campo de disputas, tanto no cenário nacional quanto no mundial, determinado por fatores específicos sobre compreensão do Transtorno, impacto do diagnóstico precoce, metodologias de tratamento, educação inclusiva e reforma psiquiátrica (moradia assistida). De uma forma bem geral (a política não é uma ciência exata), os partidos de esquerda dialogam com instituições como o Conselho Federal de Psicologia, que defende as diretrizes de atenção e cuidado a pessoa com autismo, concebe o TEA como um transtorno mental, atrelando as ações de cuidado à rede de atenção psicossocial, com destaque para os CAPSi. São a favor da inclusão escolar e da desinstitucionalização. Outro ponto importante é que são contra o diagnóstico precoce. São abordadas questões como o risco do reducionismo de um sujeito a seu diagnóstico, a crítica acerca da “banalização do diagnóstico psiquiátrico”, assim como ao caráter supostamente ateórico dos sistemas classificatórios da psiquiatria. Debate também as dimensões éticas e políticas envolvidas no processo diagnóstico, que podem produzir tanto desvantagens sociais (estigma) quanto benefícios (acesso a políticas e direitos).

Já os partidos de direita tendem a dialogar com uma visão mais cientifica do autismo (Associação Brasileira de Medicina e Psicologia Comportamental e Associação Brasileira de Psiquiatria). Essas diretrizes destacam a observância de indicadores comportamentais e de risco para o TEA, listando-os de maneira sistemática e pormenorizada. Defendem o investimento, então, em diagnosticar o mais cedo possível e encaminhar para o tratamento baseado em evidências cientificas, especificamente metodologias comportamentais (ABA, DENVER, TEACCH).

O conflito se dá majoritariamente entre os seguidores da corrente comportamental/intervencionista/médica, que advogam para si o caráter científico, e a psicanálise, tradicionalmente forte no país.

4 – Questione as promessas genéricas

Busque conhecer a carreira do(a) candidato(a) e veja se suas promessas são viáveis e compatíveis com o cargo que ele pretende ocupar. Promessa genérica é muito fácil de fazer e difícil de cumprir. Seu candidato falou que vai “melhorar a inclusão escolar” ou apresentou uma proposta para capacitação continuada com uma determinada metodologia para os educadores, construção de salas de recursos para o contra-turno e criação de equipes multiprofissionais municipais para orientação e supervisão da inclusão escolar? Ele(a) disse que ía “cuidar dos autistas adultos”, ou detalhou um projeto para construção de moradias assistidas municipais, adaptadas as necessidades dos autistas adultos, com rede de apoio e foco na inclusão social? Por fim, falou que “é importante conscientizar a população sobre o autismo”, ou apresentou um projeto de lei para garantir os direitos à população autista, especificando quais são os direitos e apresentando punições rigorosas em caso de descumprimento? Qualquer um pode dizer o que quiser mas muito melhor é apresentar planos concretos para resolver os problemas.

5 – Conheça as atribuições de cada cargo que o candidato pretende disputar.

Os deputados, por exemplo criam, debatem e aprovam leis baseados nos interesses do povo, propõe emendas à Constituição e aprovam o orçamento federal ou estadual. Participam de comissões que debatem temas de interesse nacional. fiscalizam as contas e os atos do presidente, do vice e dos ministros. Inclusive, podem convocá-los a prestar contas e abrir CPIs. Já os senadores, debatem e aprovam, baseados nos interesses da nação, os projetos que passaram pelos deputados, autorizam empréstimos feitos por governos estaduais e municipais e também participam de comissões especializadas. Portanto, é muito importante que o autismo tenha bons representantes nessas esferas.

6 – Conheça o candidato.

Saiba se, além de pensar como você, eles são honestos e realmente vão lutar pelo que defendem. A internet é uma ótima ferramenta para buscar informações sobre os candidatos desta eleição. Nos sites da Câmara, do Senado, das Assembléias Legislativas, de algumas ONGs ou próprio Google, é possível saber se seu candidato já esteve envolvido em algum escândalo, o que ele realizou em mandatos anteriores e avaliar as propostas do seu partido. Se o candidato está entrando para a política nesta eleição e está usando o autismo como tema de campanha, pesquise sobre a sua relação com a temática, se é conhecedor profundo do assunto, se era ativista em anos anteriores, se já lutou por algum projeto no seu município ou estado.

7 – Evite os erros mais comuns.

Não confunda a pessoa com o político (Muitos políticos ruins parecem carismáticos), não vote em quem está na frente nas pesquisas. Não use o voto como forma de protesto (não terá efeito algum), não vote em alguém somente porque compartilha algo com ele (familiar de pessoa com TEA ou profissional da área) e por fim, não troque o voto por um presente ou um favor do candidato.

E o mais importante. Acompanhe, supervisione e cobre o candidato eleito após as eleições . Veja se ele(a) está fazendo o que prometeu. Bom voto!

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